Se tem alguém que prova que o mundo dá voltas, este é Dapper Dan. Nascido Daniel Day, o costureiro do Harlem, em Nova York, ganhou fama ao longo dos anos 80 com roupas personalizadas que carregavam monogramas de grifes como Gucci e Louis Vuitton. Uma série de processos movidos pelas gigantes de luxo, no entanto, fez com que ele saísse de cena no começo dos anos 90.

Corta para 2017: agora, é Alessandro Michele, o elogiado diretor-criativo da Gucci, quem tem que dar explicações por ser acusado de plagiar… Dapper Dan!

Para entender como isso foi acontecer, é preciso primeiro compreender as mudanças que aconteceram no mundo da música e da moda nas últimas décadas.

A história de Dapper Dan

A Dapper Dan’s Boutique foi aberta em 1982. Ainda longe de ser a fábrica de celebridades e dinheiro que é hoje, o hip hop, antes restrito aos guetos nova-iorquinos, estava prestes a iniciar a sua “era de ouro”, com o surgimento de grupos como Public Enemy, A Tribe Called Quest e Eric B. & Rakim.

Dapper Dan, o estilista do Hip Hop
Eric B & Rakim na capa do disco ‘Paid in full’, de 1987

Além da música, esses grupos também ajudavam a divulgar toda uma nova e crescente estética na moda. As roupas eram evidentemente esportivas, mas com acessórios exagerados. Surge também o culto ao sneaker e a logomania: afinal, ter o último lançamento da Adidas ou ostentar uma peça como o monograma da Louis Vuitton era a maneira de deixar evidente o sucesso de qualquer rapper…

As grandes maisons, no entanto, ignoravam tudo isso na época. E era Dapper Dan a pessoa capaz de conjugar a rua com o luxo: ele se apropriava das logos de Gucci, Vuitton e Versace para criar roupas que agradassem a sua vasta clientela, que ia de estrelas do hip hop (Eric B. & Rakim usam Dapper Dan na capa do clássico “Paid in full”) a esportistas como Mike Tyson e até mesmo traficantes como o temido Alberto Martinez.

Uma das criações mais famosas durante esse período foi uma jaqueta bufante, de pele, com a estampa clássica da Louis Vuitton nas mangas. Criada para a atleta olímpica Diane Dixon em 1989, a peça “ressurgiu” no último desfile Cruise da Gucci, dessa vez, com a padronagem da grife italiana. Não demorou para a semelhança ser identificada.

When @dapperdanharlem is your inspiration #GucciResort18 Bravo Dapper Bravo 👏🏽 #Harlem #gucci next collaboration ?

A post shared by @Diandre_ Tristan (@diandre_tristan) on

O reconhecimento de Dapper Dan

Enquanto muita gente viu uma homenagem, houve também quem classificasse a criação de Alessandro Michele como apropriação cultural. Afinal, se no passado Dapper Dan sofrera as consequências de usar a logo da Gucci sem autorização, será que agora a grife italiana poderia fazer o mesmo com o costureiro, faturando em cima do seu design? A polêmica é complexa, e testa os limites entre inspiração, referência e plágio na moda.

O fato é que a Gucci confirmou que Dapper Dan foi a inspiração de Alessandro Michele, com o estilista ressaltando que o look era:

“…uma homenagem ao trabalho do renomado costureiro (…) e uma celebração à cultura daquela era do Harlem”.

Seja como for, o fato é que 2017 tem sido, finalmente, o ano em que Dapper Dan ganhou reconhecimento total da indústria por suas criações. Hoje presente no Instagram, ele foi objeto de diversos artigos da mídia especializada em moda, além de participar de documentários sobre o assunto. Nada mais justo, afinal, se hoje Kanye West e Rihanna recebem elogios pelos desfiles de suas grifes, é graças ao espaço conquistado por pioneiros como o nova-iorquino.

Mais importante ainda, inclusive, é o fato da boutique de Dapper Dan ter obrigado as grifes de luxo a finalmente olharem para a cultura afro-americana. A declaração do executivo de marketing Steve Stoute ao “New York Times” sobre Dan resume tudo:

“Marcas de luxo, naquela época, não eram para nós. Eles nem mesmo tinham tamanhos para pessoas negras. Então toda vez que eu vou à Louis Vuitton comprar um par de tênis, ou de calças que são do meu tamanho, eu sei que eles só estão fazendo isso por causa de Dapper Dan”.